Nancy-Strubbe

um blog a fingir que é

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. ......... Fernando Pessoa

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2/04/2006

a rua estreita


a rua estreita alarga-se com a voz, límpida, desta minha vizinha.

a vida dela é exposta como a roupa lavada a corar ao sol.

passe lá quem passar, digam o que disserem, ela nem dá por isso de tão acostumada a bairros de gente metediça. já os avós nasceram por aqui. mas meta-se alguém com as filhas namoradeiras ou o marido...
é a festa total!

por detrás das discretas janelas não há quem não se ria ou comente ao ouvi-la.
querem roupa lavada? é só passar por cá.
hoje havia silêncio estava a pôr-se o sol. não é boa a hora. só lá para mais tarde, depois do jantar e do cafezinho que é indispensável faça sol ou chuva.

mesmo ao lado, há a casa de azulejo davizinha rica da rua. vaii esquiar à Suiça e só fala comigo e donos de loja. pensa que sou como ela porque sei falar. talvez nem seja isso: mais ninguém lhe fala.



a não ser a vizinha do lado que não tem papas na línguae responde à letra.


- tem dinheiro? e eu sei onde a família o foi arranjar!

escurece um pouco.

- dona...

viro-me de máquina na mão.

- boa noite, Jaime.

- tem um cigarrinho?...

vestiu-se a rigor para ir para a colectividade. já está turvo. ou será da máquina? ou será a vida do Jaime que há muitos anos já se desfocou?


- tenho sempre comida, dona. sou organizado. o meu irmão dá-me peixe e carne e eu cozinho. num dia uma coisa noutro dia outra. sou poupado. não dá é para os cigarros... não chega para nada a pensão.

vai olhando a janela, de roupa ainda estendida, a corar ao luar.

quando os dois se encontram, é sarilho certo. histórias já antigas. quem provoca quem?

mas isso é mais tarde. quando os copos já fizeram o trabalho árduo de os espicaçar, que isto é gente nada dada a brigas...

entro em casa.
rápido me esqueço.
onze e meia, a cadela já voltou da rua, fecho a porta à chave.

- tu tira-me esses olhos da rapariga ou levas com um vaso nos cornos que...

não resisto hoje e espreito, pela primeira vez, em 4 anos deste rictual.



o Jaime levanta a calça e mostra a perna magra enquanto dança no meio da rua, até agora em silêncio total.

- queres esta? queres esta? é boa não é?

os palavrões dançam como borboletas da noite em volta da luz. os vizinhos abrem e fecham janelas.

é sábado à noite. tempo de descontrair e por a roupa toda no estendal.

amanhã há sol outra vez. ela voltará a secar da humidade que, pela madrugada, nos chega do Tejo.

4 Comments:

Blogger Lmatta said...

Esta lindo mesmo
tudo
belas as tuas fotos gostei
beijocas

05 fevereiro, 2006  
Blogger M.P. said...

Este ambiente muito alfacinha faz também lembrar o que se passa por aqui no Porto antigo.. mas mais escuro na luz e nas palavras mas intenso como só quem é do Norte sente.. :)**

06 fevereiro, 2006  
Blogger lique said...

Ou "o diário cá do meu bairro"! Colorido e quase com o cheiro do Tejo... :)
Beijinhos

07 fevereiro, 2006  
Blogger Unknown said...

gosto destas histórias do teu bairro. e as fotos estão boas, sim senhora :) a do Jaime é que de facto está um pouco desfocada mas, como dizes, se calhar até a vida dele é assim. fiel, a foto, portanto. bjs

07 fevereiro, 2006  

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